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DECLARAÇÃO DE AMOR EM OBRAS LITERÁRIAS

Page history last edited by PBworks 13 years, 6 months ago

 DECLARAÇÃO DE AMOR EM OBRAS LITERÁRIAS

 

 

 

 

 

 

Inocência, de Visconde de Taunay

 

Se compararmos esta declaração de amor com a de Romeu e Julieta, perceberemos que nada se perde em estilo e romantismo! Verifique: é muito lindo....

 

 

 

Achegou-se, em seguida, à cerca dos fundos da casa e parou no meio do pátio, olhando com assombro para uma janela aberta.

 

Um vulto ali estava!... Era o dela; Inocência.. Não havia duvidar.

 

A principio, nenhum movimento fez; mas, depois, lentamente se foi retirando e aos poucos fechou o postigo.

 

Cirino deu um só pulo e de leve, muito de leve, bateu apressadas pancadas na tábua da janela.

 

—Inocência!... Inocência!... chamou com voz sumida, mas ardente e cheia de súplica.

 

Ninguém lhe respondeu.

 

—Inocência, implorou o moço, olhe... abra e tenha pena de mim... Eu morro por sua causa...

 

Depois de breve tempo, que para Cirino pareceu um século, descerrou-se a medo a janela, e apareceu a moça toda assustada, sem saber por que razão ali estava nem explicar tudo aquilo.

 

Parecia-lhe um sonho.

 

Quis, entretanto, dar qualquer desculpa à situação e, fingindo-se admirada, perguntou muito baixinho e a balbuciar:

 

—Que vem... mecê... fazer aqui?... já... estou boa.

 

Da parte de fora, agarrou-lhe Cirino as mãos.

 

—Oh! disse ele com fogo, doente estou eu agora... Sou eu que vou morrer... porque você me enfeitiçou, e não acho remédio para o meu mal.

 

—Eu... não, protestou Inocência.

 

—Sim... você que é uma mulher como nunca vi... Seus olhos me queimaram... Sinto fogo dentro de mim... Já não vivo... o que só quero é vê-la... é amá-la, não conheço mais o que seja sono e, nesta semana, fiquei mais velho do que em muitos anos havia de ficar... E tudo, por quê, Inocência?

 

—Eu não sei, não, respondeu a pobrezinha com ingenuidade.

 

—Porque eu amo... amo-a, e sofro como um louco... como um perdido.

 

—Ué, exclamou ela, pois amor é sofrimento?

 

—Amor é sofrimento, quando a gente não sabe se a paixão é aceita, quando se não vê quem se adora; amor é céu, quando se está como eu agora estou,

 

—E quando a gente está longe, perguntou ela, que se sente?...

 

—Sente-se uma dor, cá dentro, que parece que se vai morrer.. Tudo causa desgosto: só se pensa na pessoa a quem se quer, a todas as horas do dia e da noite, no sono, na reza, quando se pede a Nossa Senhora, sempre ela, ela, ela!... o bem amado... e...

 

—Oh! interrompeu a sertaneja com singeleza, então eu amo...

 

—Você? indagou Cirino sofregamente.

 

—Se é como... mecê diz...

 

—É é... eu lhe juro!...

 

—Então... eu amo, confirmou Inocência.

 

—E a quem?... Diga: a quem? Houve uma pausa, e a custo retrucou ela ladeando a questão:

 

—A quem me ama.

 

—Ah! exclamou o jovem, então é a mim... é a mim, com certeza, porque ninguém neste mundo, ninguém, ouviu? é capaz de amá-la como eu... Nem

 

seu pai... nem sua mãe, se viva fosse... Deixe falar seu coração... Se quer ver-me fora deste mundo... diga que não sou eu, diga!...

 

—E como ia mecê morrer? atalhou ela com receio.

 

—Não falta pau para me enforcar, nem água para me afogar.

 

—Deus nos livre! não fale nisso... Mas, por que é que mecê gosta tanto de mim? Mecê não é meu parente, nem primo, longe que seja, nem conhecido sequer... Eu lhe vi apenas pouco tempo... e tanto se agradou de mim?

 

—E com você... não sucede o mesmo? perguntou Cirino.

 

—Comigo?

 

—Sim, com você... Por que é que está acordada a estas horas? Por que é que não pode dormir?... que a cama lhe parece um braseiro, como a mim também parece?... Por que pensa em alguém a todo o instante? Entretanto, esse alguém não é primo seu, longe que seja, nem conhecido sequer?...

 

—É verdade, confessou Inocência com doce candura.

 

Depois quis emendar a mão:

 

—Mas, quem lhe disse que vivo pensando em mecê?

 

—Inocência, implorou o moço, não queira negar, vejo que sou amado ...

 

—Sempre amar! observou ela, mais para si do que para quem a ouvia. No ano que já passou e por ocasião da Sra. Sant'Ana, aqui vieram umas parentas minhas e caçoaram comigo, porque eu não as entendia: tanto assim que uma delas, a Nhã Tuca, me disse: "Deveras, mecê ainda não gostou de nenhum moço"? E eu respondi: "Não assunto o que mecês estão a prosear". Aquilo era certo, e tão verdade como estar nosso Deus no paraíso... Hoje...

 

—E hoje?

 

—Hoje? repetiu a moça. Quem sabe se não era bem melhor não ter nunca gostado de ninguém?

 

—Isso não está na gente... É ordem lá de cima...

 

—Enfim, se for destino, que se cumpra.

 

Conservava-se Inocência ainda um pouco arredada da janela, de modo que Cirino, para lhe falar baixinho, tinha o corpo inclinado do lado de dentro. Segurava as mãos da namorada e puxava-a com doce violência, quando mostrava querer afastar-se.

 

Era o ardente colóquio dos dois cortado de freqüentes pausas, durante as quais se embebiam recíprocos os olhares carregados de paixão.

 

—Deixa-me ver bem o teu rosto, dizia Cirino a Inocência Para mim, é muito mais belo que a Lua e tem mais brilho que o Sol.

 

E, apesar de alguma resistência, fraca embora, mas conscienciosa, que lhe foi oposta, conseguiu que a formosa rapariga se recostasse ao peitoril da janela.

 

—Amar, observou ela, deve ser coisa bem feia.

 

—Por quê?

 

—Porque estou aqui e sinto tanto fogo no rosto!... Cá dentro me diz um palpite que é pecado mortal que faço...

 

—Você tão pura! contestou Cirino.

 

— Se alguém viesse agora e nos visse, eu morria de vergonha. Sr. Cirino, deixe-me ... vá-se embora! ... o Sr. me atirou algum quebranto... aquela sua mezinha tinha alguma erva para mim tomar... e me virar o juízo...

 

— Não, atalhou o mancebo com força, eu lhe juro! Pela alma de rainha mãe... o remédio não tinha nada!

 

—Então por que fiquei... ansim, que me não conheço mais?... Se papai aparecesse... não tinha o direito de me matar?...

 

 

 

Foi-se-lhe a voz tornando cada vez mais baixa e sumiu-se num golfão de lágrimas.

 

Atirou-se Cirino de joelhos diante dela.

 

—Inocência, exclamou, pela salvação de minha alma lhe dou juramento, nada de mau fiz para prender o seu coração.. Se você me quer, e porque Deus assim mandou... Sou um rapaz de bons costumes . Ate hoje nunca tinha amado mulher alguma... mas não sei como deixar de amar uma moça como você... Perdoe-me; se você sofre... eu também padeço muito... perdoe-me...

 

Alçara o mancebo um pouco a voz.

 

De repente Inocência estremeceu.

 

—Não ouviu ruído? perguntou ela com terror.

 

—Não, respondeu Cirino.

 

—Alguém acordou lá dentro...

 

—Pois... então vá ver... o que é... e se não for nada, volte... Aqui a espero, escondido à sombra da parede...

 

Minutos depois, reapareceu a moça.

 

—Não vi nada, disse.

 

— Então foi abusão.

 

—É melhor que o Sr. se vá embora.

 

—Não, Inocência tenha pena de mim... Eu não poderei vê-la tão cedo e... preciso conversar... mesmo para arranjo da nossa vida. . O Manecão não tarda..

 

—Ah! exclamou ela com sobressalto, então mecê sabe...

 

—Sei; e desgraçadamente, breve está ele batendo aqui...

 

—Eu bem dizia que o sr. me havéra de perder... Antes de o ter visto... casar com aquele homem, me agradava até... Era uma novidade... porque ele me disse que me levava para a vila... Mas agora esta idéia me mete horror! Por que é que mecê mexeu comigo? Sou uma pobre menina, que não tem mãe desde criancinha... Não há tanta moça nas cidades... nos povoados?... Por que veio tirar o sono... a vontade de viver a quem era .. tão alegre... que até hoje não pensou em maldade... e nunca fez dano a ninguém?

 

—E eu? replicou com energia Cirino, pensa então que sou feliz?... Olhe bem uma coisa Inocência: Digo-lhe isto diante de Deus: ou hei de casar com você... ou dou cabo da vida... Quem arranjou tudo assim... foi o meu caiporismo... Se eu tivesse passado aqui antes daquele homem, que odeio, que quisera matar... nada impediria que eu fosse hoje o ente mais feliz do mundo!... Mais feliz aqui neste sertão, do que o Imperador nos seus paços lá na corte do Rio de Janeiro! Eu já lhe disse... culpa não tive...

 

—Não há nada que nos possa salvar, atalhou a moça.

 

—Nada?... Talvez...

 

Soou nesse momento, e repentinamente, do lado do laranjal um assobio prolongado, agudíssimo, e uma pedra, arremessada por mão misteriosa e com muita força, sibilou nos ares e veio bater na parede com surda pancada, passando rente à cabeça de Cirino.

 

Deu Inocência abafado grito de terror e fechou rapidamente a janela, ao passo que o mancebo, esgueirando-se com celeridade pela sombra, resoluto correu para o ponto donde presumia ter partido a pedra.

 

 

 

http://pt.wikisource.org/wiki/Inoc%C3%AAncia_(Visconde_de_Taunay)/XVIII

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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